“A falácia da defesa dos gastos sociais pelo PT”, editorial do jornal O Globo
Acuada no Palácio do Planalto enquanto avança a tramitação do pedido de seu impeachment no Senado, a presidente Dilma
não deixaria passar o 1º de Maio sem se defender.
Foi
à concentração da CUT em São Paulo e, sem ter ao lado o ex-presidente
Lula, seu mentor, ausente por uma alegada afonia, Dilma repetiu o mantra
do “golpe” — cujo efeito se circunscreve cada vez mais à militância —, e
fez, num gesto populista, o anúncio de bondades com recursos de um
Tesouro quebrado.
O aumento médio de 9% do Bolsa Família, mais 25
mil moradias no Minha Casa Minha Vida, e o reajuste da tabela do Imposto
de Renda da Pessoa Física realizados na conjuntura em que se encontra o
país, com um déficit público recorde próximo de 10% do PIB, reafirmam o
que já se sabe há tempos: o descompromisso de Dilma com a
responsabilidade fiscal. Tanto que o país se encontra em péssima
situação, e ela poderá ser afastada do cargo, pelo Senado, na semana que
vem.
Muito eficiente em agitação e propaganda, o hegemonista PT
buscou se apropriar do discurso da defesa das despesas sociais,
existentes no país há muito tempo. Mas a prática lulopetista nem sempre
foi coerente com este discurso.
Afinal, se existe um fator
decisivo para inviabilizar programas sociais, e quaisquer outros, é a
própria irresponsabilidade fiscal. Quando, portanto, decidiu não mais
seguir regras de prudência na gestão das contas públicas, inclusive em
nome dos “pobres”, Lula, no seu segundo governo, e depois Dilma agiam em
sentido oposto. Trabalhavam contra os mais necessitados.
Na
edição de domingo, O GLOBO, com base em estudo feito pela assessoria
técnica do DEM, sobre dados de dotações de 2016 e 2015, identificou
cortes, alguns profundos, em vários programas sociais do governo, todos
trombeteados na propaganda oficial e partidária como boias de salvação
decisivas para milhões de pessoas.
Mesmo a joia da coroa dos
programas lulopetistas, o Bolsa Família, não escapou da tesoura:
corrigido pela inflação, o orçamento do BF para este ano havia encolhido
em 5,5% — antes do reajuste anunciado em 1º de maio.
Apesar do
slogan “Pátria Educadora”, criado para o segundo mandato de Dilma,
recursos destinados ao setor — por exemplo, Fundo de Financiamento
Estudantil (Fies), verbas para a construção de creches, Pronatec, este
para o ensino profissionalizante — foram reduzidos, na contramão do
discurso do tudo pelo social, inclusive a irresponsabilidade fiscal.
A
análise feita pelo DEM sobre dados oficiais comprova que mesmo um
governo comprometido, por motivos políticos, eleitorais e ideológicos,
com as despesas sociais não consegue preservá- las se não fizer bem o
dever de casa de manter as contas sob controle. Dilma não conseguiu
atender a este imperativo, foi obrigada a cortar onde não gostaria de
fazê-lo e ainda passou a enfrentar um processo de impeachment.